Opinião de João Paulo Saraiva CT1EBZ / DELTA1 | UM RADIOAMADOR SEM RÁDIO VAI NÚ

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João Saraiva ponte 25 abril

João Paulo Saraiva   CT1EBZ / DELTA1

Um radio-amador sem rádio é como aquele sonho em que nos sentimos nus e, na realidade sem rádio, o radio-amador despe-se daquilo que o caracteriza como radio-amador. Está na moda dizer que o radio-amador é a salvação quando tudo falha nas radiocomunicações, mas, quantos radio-amadores andam permanentemente com o seu rádio portátil, móvel, ou têm a sua estação fixa operacional?
Estou-me a imaginar perante uma situação de catástrofe a que sobreviva, e tenha deixado o meu rádio em casa que ruiu ou no carro que a água levou e, a dizer a alguém: sou radio-amador! Hehehehe caricato não é? Estamos de acordo.
O objetivo deste meu curto escrito é precisamente o de sensibilizar os colegas radio-amadores vocacionados para intervir em emergência de que, não só são úteis como radio-amadores acompanhados do rádio à cintura, preferencialmente com antena comprida e bateria de reserva ou mesmo carregador solar ou gerador de manivela, mas se o tiverem podem fazer toda a diferença.
ft411Recordo hoje com ironia do destino de uma das minhas intervenções como radio-amador mais criticadas na altura até por um militar da GNR hoje dirigente associativo de uma associação de radio-amadores e que passo a partilhar convosco embora muitos já conheçam a história. Certa tarde de verão seguia eu na camioneta da Rodoviária Nacional de Tercena para Caxias, onde ia apanhar o comboio rumo à unidade militar onde prestava serviço e, presencio a ocorrência de uma lipotímia (vulgo desmaio) em homem que deveria ter os seus 40 anos. Os sinais e seu aspeto debilitado levou-me a suspeitar de doença crónica que se viria a confirmar e, perante isto, consciente de que sem meios adequados pouco poderia fazer quis chamar uma ambulância, mas, naquele tempo os telemóveis custavam mais de 1000 contos e eu não tinha um, nem como carrega-lo às costas com a minha frágil constituição física, mas tinha o meu radio de amador (um Yasesu FT411E com placa de tones) e, como curioso que era, sintonizei-o na frequência e tom de proteção da GNR e chamei o posto territorial de Caxias (que hoje já não existe sequer o edifício junto à estação da CP), pelo seu indicativo (Lima 253.8) e identificando-me como “estação não identificada”. Prontamente à 2ª chamada um militar daquele posto me respondeu, ao que expliquei a situação e solicitei ativação de ambulância para a ultima paragem, a estação ferroviária de Caxias. Chegado à estação lá estava a ambulância e a vítima diabético e insulinodependente foi então conduzida ao Hospital. Para além da ambulância à espera estava também um militar da GNR que me pediu que o acompanhasse ao posto e assim fiz. Chegado ao posto fui recebido por um segundo sargento que quis elaborar relatório sobre a ocorrência e me elucidou de que poderia vir a ter problemas, pelo que invoquei a Lei de Bases de Radiocomunicações e o direito de ultrapassar as regras quando esteja em causa a salvaguarda de vidas ou bens. No mesmo dia à noite, atento ao SITREP como um religioso ao terço na RR, lá segui na relação de serviços para o comando territorial a informação da minha intervenção. Medo!!!
A informação chegou à entidade fiscalizadora, a Direção dos Serviços Radioelétricos dos CTT, que se a memória não me atraiçoa, nunca sequer me inquiriu sobre o assunto.
Durante anos tive receio de ficar sem licença de radio-amador, mas nada aconteceu e já lá vão mais de 20 anos mas, a questão que me coloco frequentemente em relação a estas e tantas outras situações semelhantes que vivenciei é: e se eu não tivesse ali o meu rádio de amador?   Teria sido possível contribuir para salvar uma vida.
Mais tarde encontrei o mesmo senhor na Praia da Giribita em Caxias, não me reconheceu e também não me dirigi a ele, mas saber que estava vivo fez-me sentir útil como pessoa e, como radio-amador! Voltaria a repetir tudo de novo.

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